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21/06/09 - Hospitalidade – O grande desafio, por Luiz Octávio de Lima Camargo

O povo brasileiro é realmente hospitaleiro? A hospitalidade vista como a chave para suscitar o desejo de retorno nos milhares de turistas que virão ao nosso país para a Copa.

Luiz Octávio de Lima Camargo Há poucos dias, tive a felicidade de assistir na televisão a um programa sobre os preparativos da África do Sul para a Copa do Mundo de 2010 e sobre todos os esforços da Comissão Organizadora do evento em mostrar que as obras estavam caminhando dentro de um apertado mas viável cronograma de execução. O que me alegrou, contudo, foi o argumento central para justificar os altos investimentos que estavam sendo feitos. Teremos a oportunidade, disse o Presidente da Comissão, de receber 400 mil novos visitantes no país e nossa obrigação será de fazê-los retornar um dia. Ele colocou esse benefício acima da melhoria da infraestrutura esportiva e de transportes do país, pensei eu. Será que ele também estava entendendo o desafio de receber tantos novos “hóspedes” como o desafio de melhorar a estrutura receptiva do país? A nossa oportunidade de receber essa mesma ou uma quantidade ainda maior de “hóspedes” em 2014 ainda é vista apenas como uma oportunidade de obras, obras, obras, de estádios, rodovias, metrôs, aeroportos, hotéis etc. Sobre a estrutura receptiva, temos uma intuição perigosa: a de que com essas obras feitas, basta uma campanha para arregimentar voluntários – e estes certamente não faltarão – pois o brasileiro é naturalmente hospitaleiro. Por que essa intuição é perigosa? Porque não somos naturalmente hospitaleiros. Talvez, nossa herança rural e tradicional ainda seja muito forte. É por isso que o filósofo espanhol Julián Marias lembrou em uma entrevista que há mais alegria no Mercado de Olinda do que em toda a Suíça. Ou que o consultor italiano Domenico de Masi, que tanto sucesso fez entre nós, lembrava que no Brasil se dá mais gargalhada em um dia do que na Itália em uma semana e na Suécia em um mês. Em vista dessa herança rural ainda recente, talvez ainda tenhamos mais gosto por ver novos tipos físicos, quem sabe vestindo roupas estranhas, sempre falando línguas estranhas que não entendemos, mas gostamos de ouvir. Talvez gostemos mais de gente do que os franceses, ingleses, americanos, estes mais acostumados à experiência da cidade moderna em que os indivíduos vivem sufocados pela promiscuidade humana.

É fácil ser hospitaleiro quando se vive com 11 pessoas, já lembrava Konrad Lorenz. O difícil é sê-lo com 7 bilhões de pessoas. Em livro recente sobre o assunto (Lashley&Morrison. Em busca da hospitalidade. São Paulo, 2004), pesquisadores ingleses cunharam um conceito que vem bem a calhar para esta discussão: o de hospitabilidade, ou seja, a habilidade, a capacidade de oferecer hospitalidade. É diferente ser anfitrião (a postura necessária de quem recebe alguém por qualquer motivo) e ser hospitaleiro (gostar de pessoas). O indivíduo simplesmente hospitaleiro confunde gostar de pessoas com seqüestrar pessoas, às vezes impondo passeios, comidas, rituais. Confunde gostar de pessoas com invadir seu espaço, com mendigar retribuição. Ser anfitrião é, pois, ser capaz de receber dando a atenção necessária e solicitada, colocando-se à disposição sempre que necessário, ou seja, ter hospitabilidade.

Se for um trabalho profissional, que fique claro que não é um trabalho de massa. É um trabalho de corpo a corpo. Se a projeção for de 400 mil visitantes, teremos de repensar nossa estrutura profissional e, mais do que arregimentar, treinar mais de 1 milhão de voluntários, dotá-los da hospitabilidade necessária para tornar, aí sim, a viagem ao Brasil suficientemente prazerosa a ponto de suscitar o desejo de retorno ou aquela divulgação de nosso país que é realmente efetiva – a do boca-a-orelha. A esta altura, não podemos deixar de perguntar: talvez sejamos hospitaleiros (vá lá, vamos até deixar de lado os problemas para a hospitalidade humana do excesso de violência e de miséria em nosso país!), mas somos naturalmente dotados de hospitabilidade? Somos, no máximo, cordiais, para lembrar a expressão cunhada por Sérgio Buarque de Holanda e que até hoje é mal compreendida. Aqueles de nós que ainda guardam alguma forma de vivência de nossa herança rural, ainda movidos pelo coração (e não já cansados de viver em meio a tanta gente), talvez sejamos mais hospitaleiros, mas não necessariamente anfitriões, dotados de hospitabilidade!

O que seria, então, esse desafio da hospitabilidade? Arrolemos alguns itens de uma agenda necessária e possível: 1.Repensar, desde já, a ainda cinco anos do evento, a dimensão e a qualidade da estrutura receptiva profissional e voluntária de todo o cluster turístico de cada uma das cidades-sedes. Isto implicará em estudo do fluxo previsto de visitantes e de sua segmentação, dimensionamento dos profissionais (de aeroportos e terminais de transporte, hotéis, restaurantes, taxistas) e voluntários necessários nas cidades-sedes e nos sítios turísticos de sua área de influência e treinamento de todos. 2.Antes de pensar em aumentar uma estrutura hoteleira que poderá ficar ociosa no futuro, lembrar a opção do bread and breakfast. Aumentar o número de pessoas a se beneficiarem do aumento do fluxo turístico além dos habituais, esta deve ser uma preocupação sempre presente. Para terminar: na verdade, o desafio é de sermos anfitriões sem deixar de perder o lado positivo da cordialidade – o riso franco e jovial, o gosto pela agitação, o sentimento e a certeza de que o que mais diverte gente não são paisagens e, sobretudo, edificações com as quais estão de sobra habituados em seus países; o que mais diverte gente é... gente! Essa hospitabilidade é uma ciência, uma arte e uma técnica. Seremos capazes de dar conta desse desafio? Luiz Octávio de Lima Camargo é livre-docente pela USP/EACH, doutor em Sciences de l'Education pela Universidade Sorbonne-Paris e graduado em Comunicações e Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Atualmente leciona no Programa de Mestrado em Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi e é docente do Bacharelado em Lazer e Turismo da EACH-USP. * Torcedor do Corinthians (sofredor confesso), em seu jogo mais inesquecível, estava junto a outras 120.521 pessoas em 1974, na decisão do Campeonato Paulista daquele ano. O Corinthians perdeu por 1 a 0, gol de Ronaldo já no final de segundo tempo, depois disso um “incômodo e interminável silêncio”.

Fonte Mtur - copa 2014

 


 

 

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