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03/06/09 - "Esta não deve ser uma Copa das 12 cidades, mas de todo o Brasil"

Entrevista com o secretário nacional de Políticas do Turismo, Airton Pereira.

Airton Pereira - secretário nacional de Políticas do Turismo Qual é o papel do Ministério do Turismo neste processo de planejamento da Copa 2014?

O Ministério do Turismo tem refletido muito sobre o seu papel e a sua atuação desde o momento em que houve esta decisão e foram apresentadas as candidaturas das cidades brasileiras, e nós temos isto hoje com muita clareza. Uma questão é a capacidade hoteleira: como o Ministério do Turismo pode melhorar a qualidade dos hotéis, ajudar a atrair novos investimentos para as cidades escolhidas e auxiliar no processo de classificação hoteleira, que estabelece uma referência clara para os consumidores, sejam turistas nacionais ou internacionais. Esta é uma das nossas áreas de atuação, o parque hoteleiro instalado e que venha a se instalar. Em segundo lugar, existe uma infraestrutura turística – que se diferencia de outros tratamentos que estão sendo dados, por outras entidades do governo, para infraestruturas mais gerais –, como a sinalização turística, a adequação do patrimônio histórico para visitação, ou seja, um conjunto de intervenções tanto nas cidades-sedes quanto naquelas que otimizarão o seu aproveitamento turístico com a realização do evento. O terceiro ponto é a qualificação profissional, que neste caso também cabe ao Ministério do Turismo. Há a questão do idioma, do atendimento dentro e fora do hotel, nos aeroportos – um conjunto de atividades que precisa ser encarado com o estabelecimento de metas de hoje até 2013, quando ocorre a Copa das Confederações, um grande teste de como o País vai se comportar no ano seguinte. E, por fim, há a promoção: para mim, um dos ingredientes que fazem um evento dessa natureza valer a pena ou não. O Brasil tem de imaginar como será a projeção da sua imagem no exterior a partir do próximo ano – estou falando do final da Copa do Mundo de 2010, pois já no evento de encerramento todos os holofotes se virarão para o Brasil. Não é simplesmente utilizar este espaço sem uma estratégia, esta é uma decisão de governo. O Brasil tem de se perguntar a partir de hoje qual é a imagem que ele quer projetar. Na mais recente Copa, na Alemanha, havia todo um objetivo embutido na estratégia, que era mostrar um país unificado, a unificação do povo alemão. A imagem que mais se viu foi de alemães alegres, se abraçando, com bandeiras – o país se preparou para exibir e deixar essa imagem. Então, imagine o volume de investimento que teria de ser feito para realizar um evento dessa natureza [para promover a ideia de unificação]. Assim como a China, que no evento olímpico quis passar a imagem de grandiosidade, modernidade, tecnologia.

É comum do histórico dos países comunistas usar eventos dessa magnitude para passar isso... E o Brasil, que imagem pretende passar ao mundo?

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nas suas viagens, tem feito esforços para passar a imagem de um país que tem uma nova alternativa energética para oferecer ao mundo, tecnologia de ponta em várias áreas, diversidade, capacidade. Não sei se isto será traduzido para a Copa, porque esta é uma decisão maior, mas o Ministério do Turismo contribui para essa decisão. No meu entendimento, este deve ser o objetivo para fora e para dentro, pois deve servir para aumentar a auto-estima do povo brasileiro. Realizar um evento dessa natureza também pode significar uma oportunidade de mostrar o País. Esta não deve ser uma Copa das 12 cidades, deve ser uma Copa de todo o Brasil. Devemos aproveitar essa oportunidade para mostrar os nossos atrativos no entorno das cidades-sedes. Perto de Brasília, que será cidade-sede, temos as cidades de Goiás, a Chapada dos Veadeiros, Pirenópolis. Um mundo de atrativos. Cuiabá, no Mato Grosso, tem proximidade com Bonito e toda a região do Pantanal. É preciso aproveitar os intervalos dos jogos para atingir esse objetivo. Estas são as quatro grandes preocupações, as grandes áreas de atuação que o Ministério do Turismo já definiu como suas neste processo de organização da Copa.

Com relação ao Plano Nacional de Turismo e às políticas de turismo atuais, como o senhor vê os resultados já colhidos sendo aproveitados para a Copa?

Há uma coincidência, porque, neste processo de Plano Nacional de Turismo e no desenvolvimento do Programa de Regionalização, o Ministério do Turismo havia feito um afunilamento de 65 destinos turísticos com os quais nós fizemos um acordo, um diagnóstico mais aprofundado, e as 12 cidades-sedes estão todas incluídas nesses 65 destinos. Há uma linha geral de ação e de acompanhamento, e um recorte especial deste universo de 65 para as 12 cidades-sedes. Neste momento é feita uma espécie de cruzamento, pois um evento desta natureza acelera processos. Boa parte dos pontos que identificamos como necessários – portos e aeroportos, por exemplo – de serem desenvolvidos nessas cidades, com o advento da Copa e com recursos utilizados para a infraestrutura, terá o seu processo acelerado. Se olharmos para a Política Nacional, veremos muitos recursos para a aprovação do Brasil no exterior. Veremos também que em quatro anos, em função deste evento e de um conjunto de eventos preparatórios, vamos ter a imagem do Brasil exibida para bilhões de pessoas no mundo inteiro. Esta é uma oportunidade que não teríamos se não fosse gasto muitas vezes aquilo que será usado para esta produção. Questões citadas na Política Nacional e que constam no Plano Nacional serão alavancadas com a Copa. E assim ocorrerá com todos os outros itens que eu levantei, de qualificação, infraestrutura específica do turismo etc.

Então a tendência é que esses aspectos já vigentes atualmente sejam reforçados ou haverá alguma atuação nova, mais específica?

A Copa traz outra grande vantagem: aquilo que não foi apontado pelo Plano, feito o diagnóstico de uma cidade-sede como Brasília, por exemplo, aparecerá, como a construção de um estádio de futebol. Porque se fizermos um desenho turístico da cidade será indicada a necessidade de qualificação de A, B ou C – neste caso, a necessidade de promoção, de reforma da Catedral... E estes são itens com os quais certamente a cidade se preocupará para a preparação da Copa do Mundo. O que não for apontado será resolvido com recursos privados, como é o caso dos estádios: acredito que 70%, 80% do que está sendo proposto será resolvido sem a utilização de recursos públicos. Assim, há uma coincidência muito grande em relação às melhorias necessárias, às cidades-sedes, que podem se tornar mais competitivas com o turismo. A Copa acelera esta realização.

Neste período de quatro anos temos a possibilidade de realizar mais por conta de um evento como este. Falando nas cidades selecionadas, como o senhor avalia esta divisão de sedes para o turismo?

Algo muito positivo é que todas as regiões estão contempladas, o que facilita a distribuição e a apresentação de um Brasil diverso, com culturas diferentes, natureza, recursos naturais diferenciados. Teremos a exibição de todas as nossas características nestas cidades que foram escolhidas. Há o Pantanal para apresentar, o Cerrado, as cidades históricas, a Amazônia... Isso agradou o Ministério do Turismo. É bom ver a presença maciça do Nordeste, o turismo nesta região é importante, o turismo é fundamental. Enfim, do ponto de vista do turismo, a distribuição foi muito benéfica.

Há alguma região que receberá mais benefícios em função da escolha, como o Nordeste, por exemplo?

Eu acho que o Nordeste será a região mais beneficiada. Primeiro porque é onde o turismo é mais necessário, é uma região de maior concentração de pobreza, e essa migração de recursos do Sul e do Sudeste para o Nordeste é muito positiva. Consolida a posição da região em relação aos destinos europeus, porque certamente será um portão de entrada, pela proximidade, pela oferta de voos, o que traz muitos benefícios. Se for algo bem trabalhado, pode ajudar neste processo de recuperação da imagem do Rio de Janeiro, já que há a expectativa, ainda não confirmada, de que seja a sede da final. Um evento dessa natureza tem de ser trabalhado para realmente passar a imagem correta, porque muita gente tem uma imagem distorcida. Também é uma grande oportunidade para um conjunto de cidades da região do Pantanal que são totalmente desconhecidas em âmbito internacional. No caso da região da Amazônia, as pessoas a conhecem mais pela floresta, mas não têm ideia da sua estrutura. O mais importante é que esta somatória projete um Brasil diferente, um Brasil que se quer mostrar diferenciado. Nós ainda não saímos daqueles estereótipos que foram construídos e nós reforçamos muito historicamente – “é o país do samba, do futebol...”. Sim, é o país do futebol porque realiza, pode realizar, tem condições... Mas é um país que também tem a Embraer, uma matriz energética diferenciada, soluções diferenciadas, tecnologia na captação de petróleo. Eu volto a dizer que isto não está no âmbito do Ministério do Turismo, porém está no âmbito do MTur apontar, fazer rapidamente o desenho do que se quer mostrar. Porque já no evento de encerramento da Copa de 2010 teremos de dar essa pincelada, senão vamos apresentar Escolas de Samba? Isso reforçaria o estereótipo que acabou sendo o sinônimo da imagem do Brasil nos últimos tempos.

Alguma preferência pelo local de abertura?

Só estou citando o que tenho ouvido, até porque na última e única Copa realizada no Brasil, pelo fato de a final ter sido no Rio as pessoas têm preferência, desejo de repetir a final de uma Copa no Maracanã, mas temos de considerar também a disputa de outras cidades. Belo Horizonte, São Paulo, Brasília estão brigando pela abertura e pelo encerramento, e pelo Centro de Imprensa, uma área que receberá uma concentração de jornalistas. Então eu não tenho nenhuma preferência, são só comentários em relação ao que tem sido noticiado como possibilidade de abertura e de final da Copa do Mundo de 2014.

Falando especificamente de futebol, que benefícios o Brasil poderá ter com a Copa?

O que tem sido apontado como melhoria nos estádios e nos serviços oferecidos ao torcedor para se adaptar às exigências da FIFA trará um benefício muito grande para o público. Comprar ingressos pela Internet e não precisar enfrentar filas, ver o lugar marcado ser respeitado, não ter pontos nos estádios onde não se consiga enxergar nada, todo o procedimento de segurança dentro do estádio e no seu entorno... A Copa pode criar um outro hábito, porque até então isso é muito precário. Se o Brasil já tratasse o futebol como espetáculo, com o respeito que a torcida merece, hoje nós não teríamos esse quadro. Mesmo diante do quanto o brasileiro gosta de futebol, há certo receio, essas dificuldades da compra antecipada, então eu acho que no aspecto do espetáculo, da grandiosidade, há uma motivação a mais nesses quatro anos para este debate, esta conversa. O assunto trará maior interesse do público e uma maior facilidade no tratamento mais respeitoso com o torcedor que gosta e quer ir aos estádios. Eu não tenho dúvidas de que o que nós temos hoje é potencial para termos clubes fortes como os europeus. Só falta organização, uma maior gestão dos clubes, e eventos dessa natureza podem trazer à luz uma série de questões que beneficiem esse caminho. No que se refere aos serviços oferecidos aos torcedores, vamos ter de lentamente ir fazendo essa adequação. E, depois de passar por isso, depois da Copa, isso ficará no dia a dia, como um hábito para os nossos campeonatos.

É provável que tenhamos como legado da Copa o futebol muito mais próximo de ser um produto turístico?

Eu acho que sim.

O que nos diferencia hoje no futebol como produto turístico e opção de lazer das cidades?

Ver essa possibilidade de acessar os estádios, comprar para grupos, tudo isso é uma grande dificuldade, porque esses lugares ainda não têm isso organizado. Visitar os estádios, ter equipamentos que gerem interesse na visitação, ter alguns museus dentro dos estádios, tudo isso é produto turístico, e todo mundo vai querer conhecer os estádios da Copa do Mundo. Promover cultura dentro dos estádios será uma atração para outras regiões do próprio Estado, gerará interesse. Espero que as cidades e os gestores desses estádios tenham a preocupação de ofertar e explorar esses aspectos. Isso gera receita. Se você vai ao campo do Barcelona, ou do Real Madrid, a estrutura está montada: de visitas, da loja, de forma que se gere receita, além de gerar a exportação da imagem do clube, porque uma camisa rodará o mundo inteiro, gente do mundo inteiro passa por esses locais... Mas, é preciso ter tudo organizado, horários, guias etc. Estes pontos devem ser incluídos nos projetos dos estádios. Aqueles que vêm de fora veem no futebol brasileiro um fator de admiração, de interesse, por isso acho que a Copa pode deixar um legado para o futebol, sim.

O senhor tem o hábito de frequentar estádios?

Não ultimamente... Porque estou morando em Brasília há sete anos, eu sou do Estado do Rio, e não tem coincidido... Mas sempre fui, só não tenho frequentado nos últimos anos.

Lembra da última vez que foi ao estádio?

Fui assistir ao jogo Brasil x Portugal, um amistoso em Brasília este ano. No ano passado fui ao Maracanã.

E como foi a sua primeira vez num estádio, tem alguma lembrança?

Tenho, trágica! (Risos) Porque sou botafoguense e fui assistir a uma final contra o Fluminense, meu pai era Fluminense, e o Botafogo precisava de um empate para ser campeão. Na final do Campeonato Carioca.

Acho que foi em 71, 72... Década de 70. O Fluminense fez o gol da vitória, gol roubado, aos 45 minutos do segundo tempo... Então não foi uma estreia muito feliz... Valeu pelo espetáculo. Maracanã lotado. * O gol reclamado pelo secretário ocorreu no dia 27 de junho de 1971 no Maracanã. Ele era uma das mais de 140 mil pessoas presentes à final do Campeonato Carioca daquele ano. O gol foi marcado por Lula, aos 42 do segundo tempo. A torcida do Botafogo jura que o goleiro Ubirajara foi empurrado por Marco Antonio.

Fonte Mtur - copa 2014

 


 

 

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